Vamos fazer uma video-party? Co-viewing em tempos de pandemia.

Autora invitada: Fernanda Pires de Sa

Fernanda Pires de Sa es investigadora del grupo MEDIUM del Departamento de Comunicación de la Universitat Pompeu Fabra – Barcelona. El tema de investigación de su tesis doctoral, dedicada a las prácticas de co-viewing en entornos multipantalla,  ha adquirido en estos días de confinamiento una enorme relevancia, especialmente a partir de fenómenos emergentes como las video-parties.

Ninguém imaginou o que viveríamos em 2020. Psicologicamente, não estávamos preparados. Não obstante, a capacidade de adaptação do ser humano é algo que se prova viável uma e outra vez. Sim, de uma maneira ou de outra, algo era certo, nos adaptaríamos a essa situação tão adversa que, pode ser chamada de pandemia, crise sanitária mundial, coronavírus, COVID-19 ou SARS-CoV-2. Chamemos como chamemos são tempos duros para todos. Nesse período, o vídeo, as tecnologias digitais e as plataformas sociais vêm demostrando certo protagonismo. Além disso, nos dão uma esperança de que de alguma maneira tudo sairá bem.

Mas até que tudo fique bem mesmo e que, as atividades comuns do cotidiano, da maioria das pessoas, voltem a uma possível normalidade não poderemos praticar certas atividades que antes que eram consideradas garantidas e irrevogáveis. Ir ao cinema ou tomar uma cerveja num bar em companhia de outras pessoas por enquanto é fisicamente inviável. Poder estar com amigos, colegas e familiares é algo quase impossível – dependendo de com quem e onde você more. Atualmente, observamos como certas práticas sociais com o uso de tecnologias digitais que já existiam anteriormente, passaram a ter um aumento considerável. Que atire a primeira pedra quem não anda falando com os familiares por vídeo chamada? Quem ainda não fez uma reunião de trabalho por vídeo? Quem assistiu uma live de um cantor ou de outras celebridades (YouTubers, atores, etc)? Ou até mesmo fez a própria live no Insta? Resolveu virar um tiktoker para poder se divertir como uma criança? Fez um happy hour com os amigos por vídeo? Foi a um encontro com alguém de um aplicativo usando alguma app de vídeo? Jogou com os amigos algum jogo, seja os da infância ou por uma assinatura online de algum console de vídeo game? Ou até mesmo fez co-viewing em alguma app ou plataforma que permitisse co-watching/ watch parties (co-visualização, assistir conjuntamente)?

Perdoem a quantidade de indagações, mas imagino que ao menos uma dessas práticas sociais audiovisuais foi realizada nesse período de isolamento social.

Como se sabe, o vídeo e, particularmente, a televisão sempre foi um dispositivo social. Ou seja, as pessoas sempre se reuniram com familiares e outras pessoas queridas ao redor da TV. Muitos usos e práticas diárias se desenvolveram ao redor da televisão como já apontavam teóricos dos estudos culturais como Ien Ang, Roger Silverstone, James Lull, entre outros. No entanto, foi somente com o surgimento de aplicativos de TV social baseados em tecnologias digitais e com uma estrutura mais social da Web que essa sociabilidade passou a ter um apelo mais amplo e conectado. Desde então, a TV e o vídeo se transformam. Essa transformação ocorreu pela interação tecnológica gerada por aplicativos de segunda tela e sistemas inteligentes de televisão, e pelas plataformas e redes sociais, ou plataformas de vídeo on demand tais como Youtube e Netflix, entre tantas outras.

As práticas de co-viewing/co-watching entre tantas outras práticas sociais se estenderam ao âmbito dessas tecnologias e espaços digitais. O nosso mundo material, como já dizia a antropóloga Sarah Pink e seus colegas de Melbourne, já não pode mais ser separado do mundo digital. Eu mesma fiz minha tese doutoral e vários artigos baseados nessas grandes mudanças em relação a um produto tão consumido no Brasil e na América Latina, a telenovela. No entanto, depois de um boom sobre as segundas telas, no princípio desta década, pesquisar essas atividades e outras tantas que ocorrem online não estava tão na moda no mundo das ciências sociais, como está agora durante esta pandemia.

Mas os grandes desenvolvedores de tecnologia, já vinham se preparando para esses usos há algum tempo. Por exemplo, em 2018, o Facebook passou a oferecer as chamadas parties (festas) que abriam a possibilidade de realizar co-viewing de vídeos com comentários em formato de texto dentro da plataforma.

Netflix, a maior plataforma de streaming e rental do mundo, já tinha uma extensão não oficial para Google Chrome chamada Netflix Party que permite transmitir simultaneamente a Netflix com amigos e familiares e, comentar por texto com eles, independentemente da parte do mundo onde cada um esteja.

Em abril de 2019, Marck Zuckerberg apresentou os produtos mais novos do conglomerado do Facebook na famosa conferência F8. A F8 que é realizada anualmente, em São Francisco na Califórnia, já mostrava a possibilidade de fazer co-viewing com os amigos pelo Messenger, ou implementar vídeo chamadas com o Whatsapp. O investimento em Inteligência Artificial (IA) para realidade aumentada também era evidente, com o desenvolvimento de backgrounds e efeitos para vídeos e fotos – agora também com a versão 360, ou até mesmo o hardware chamado Portal feito para integrar IA (computer vision) e vídeo chamada.

Já este ano, com a crise sanitária vimos um boom de apps para poder fazer co-viewing, co-playing, chamadas, broadcast, encontros, aulas etc. Posso nomear alguns outros apps e softwares para isso: Metastream, Rave, Discord, ou até mesmo Scener que permite vídeo chat.

Eu mesma já joguei um jogo chamado Stop, ou Tutti-Frutti em espanhol, enquanto estava numa chamada de vídeo com amigos. Também pude estar acompanhada jogando Mario Kart pela assinatura online da Nintendo. É interessante pensar, como nesse momento, essa presença digital e visual é importante para estarmos conectados, juntos e, criarmos boas memórias emotivas desses tempos tão estranhos. Mas daí surge uma questão: são tão bons esses aplicativos e plataformas? É preciso estar em mais de um? Ou com poucos já bastava? Na minha experiência, estar tão longe e, ao mesmo, tão perto, de forma massiva, requer mais investimento. Necessitamos infraestruturas e tecnologias que deem conta desse uso que de um dia para outro teve um aumentou expressivo.

Como já dizia Carlos A. Scolari em seu novo livro Media Evolution, os meios de comunicação se recombinam em um ritmo nunca visto antes na história do Homo Sapiens. As hibridações e mutações dessas espécies midiáticas é evidente e, ocorrem agora de forma ainda mais acelerada. Algumas espécies talvez possam ficar para trás se não seguirem o ritmo das práticas e necessidades de seus usuários, como por exemplo, é o caso de aplicativos como o Skype que com toda sua trajetória não foi tão aclamado nessa época como a plataforma Zoom, Hangouts (Alphabet/Google) e, outros produtos da marca Facebook.

Outra questão a levar em consideração são os nossos dados. Muitos escândalos aconteceram durante a quarentena, como o vazamento de dados por algumas plataformas de vídeos. Já sabemos que tudo que é gratuito não é gratuito, já que nossos dados se transformam em publicidade. Como fugir disso? Cada vez é mais difícil, já que vivemos numa sociedade plataformizada (Van Dijck e seus co-autores).

Mas o mais importante de tudo isso, amigos leitores, é que vocês possam estar co-presentes e de forma saudável com todas a suas pessoas queridas! Saúde a todos e com muitos vídeos!

5 Comments

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  1. paulo celso Silva mayo 7, 2020 — 1:17 pm

    Que buena reflexión de la investigadora Fernanda Pires de Sa , enhorabuena!! una pregunta: se puede replicar en un blog academico de Brasil?
    abrazos y muchas gracias

  2. De nada 🙂 Obrigada por compartilhar! Um abraço.

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